terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Desabafo de um engaiolado


Este texto foi escrito quando eu era uma vestibulanda. Um desabafo exagerado, ingênuo, imaturo e, por isso mesmo, engraçado de ser lido quase dez anos depois. Fica aqui como homenagem àqueles que acabaram de ser aprovados nos exames deste ano:

Quem disse que nós, homens, somos livres? Tão animais quanto qualquer outro, estamos predestinados a uma vida de atividades e rotinas das quais não podemos fugir. Com um porém, a nossa gaiola espiritual e física quem coloca somos nós mesmos, o que, não querendo rejeitar a minha raça, às vezes me obriga a acreditar que, na verdade, nós somos os mais burros dos animais, e não os únicos “comprovadamente” inteligentes, como acredita a ciência.

Talvez seja exatamente pelo fato de sermos burros que nos obrigamos a horas maçantes de exercícios mentais praticados à exaustão, executados diariamente em rotinas estressantes e desumanas de estudo, que tem como finalidade alcançar a superioridade intelectual e quebrar os limites do corpo e da mente, assimilando tudo aquilo que nos é passado como sendo primordial para a vida, sem ao menos sabermos por que o são.

Traçamos planos e estratégias de estudo comparados a uma concentração de guerrilheiros à beira de um combate. Guerreamos diariamente contra nós mesmos, contra nossas forças, contra nossa saúde, nossa paciência, nossa juventude. Tudo isso para quê?

Devoramos tudo o que nos dizem que devemos. Somos convencidos, dia a dia, de que temos que seguir certas regras — que ninguém sabe de onde surgiram — para podermos fazer parte da sociedade, sermos cidadãos. Sociedade essa de competição e critérios de inteligência oblíquos e mal-avaliados, que acabam limitando a capacidade humana de raciocínio em vez de estimulá-la.

Hoje em dia, quem decora mais coisa, acaba indo melhor em provas escolares, concursos públicos e provas de aprovação em cursos superiores. Somos transformados em máquinas programadas para engolir teorias prontas, que não estimulam o desenvolvimento intelectual. Isso nada mais é que a mais eficaz maneira de manipulação do ser humano.

Vestibular. Existe raça mais primitiva que o homem, capaz de obrigar todos os seus descendentes, filhos, a passar por tão cruel provação, que só tem como finalidade a padronização do povo? Questões subjetivas de caráter eliminatório têm o poder de nos classificar como aptos ou não a nos tornarmos verdadeiros profissionais, que muitas vezes ainda nem sabemos que profissional seria esse.

Qual é o critério de avaliação de uma prova que faz com que, em um período de um ano, um jovem de 17 anos — que não tem nem um quarto de sua vida formada, da qual dois terços pertenceram à infância, e que acabou de passar pela conturbada fase da adolescência — se submeta a horas de estudos diários, mal-alimentados e mal-dormidos, para, no fim, passar quatro horas sentado, respondendo a perguntas de respostas decoradas, que estão distantes da realidade educacional brasileira? Sem contar com a pressão de seus familiares e de si próprio, que, por causa de toda uma criação bitolada e limitada, acreditam ser essa a única maneira de ser alguém no futuro. Ainda têm que conviver com o nervosismo de saber que esse único dia decidirá o lugar que ele ocupará na sociedade pelo resto de sua existência. Para que tudo isso? Para depois fazer com seus filhos tudo o que fizeram com você e morrer?

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